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Expresso do Amanhã - Crítico, engraçado e inteligente

"Às vezes a vida reserva ótimas surpresas". Foi assim que pensei ao me deparar com um filme do calibre de "Expresso do Amanhã" passando em pleno Orient Cinemas do Cariri Shopping.


Dirigido pelo sul-coreano Bong Joon-ho há cerca de dois anos, o filme só veio estrear no Brasil semana passada e eu, logo que vi a sinopse, me interessei em ver. Logicamente crítica social, uma vez que a história gira ao redor de um trem num mundo pós-apocalíptico dividido em classes, "Expresso do Amanhã" vai além, quase que se tornando fábula ao passo em que cria situações bizarras e reviravoltas interessantes.

Quando a classe liderada pelo personagem de Chris Evans sai da parte traseira, numa espécie de rebelião contra o sistema injusto vigente no trem, começamos também uma longa jornada até o fim do filme. A cada vagão que aquelas pessoas - tratadas como subgente - passam, conhecemos mais sobre o funcionalismo do expresso e (também!) sobre o mundo em que vivemos. Assistimos, por exemplo, como funciona uma escola de crianças dedicada praticamente a idolatrar Wilford, o empresário e criador do expresso. É tragicômico ver a forma como a educação pode funcionar. Essa talvez seja a cena mais dolorosa do filme, que conta com muitas, como quando alguns personagens descobrem a fórmula por trás da barra de "proteínas", único alimento oferecido para a classe baixa e do que ela é feita. A crítica é tão óbvia e tão sensível ao mesmo tempo em que tão brutal aos nossos olhos que fica difícil não sair da sala de cinema sem pensar sobre o que vimos durante 2 horas.

Ao final, quando ocorre o aguardado encontro entre o personagem de Chris Evans e o responsável pelo trem, Wilford (Ed Harris), talvez encontremos a parte mais interessante do filme. A forma como o vilão desconstrói as ideias do protagonista chega a dar sentido à sua fala, assim como fica claro para quem assiste compreender como funciona a cabeça de Wilford, os seus motivos, as suas ideias. E adivinha só? Fica fácil trazer tudo isso para o nosso mundo real. O brilhantismo com que o filme constrói o último diálogo lembra muito as incríveis reviravoltas que Christopher Nolan gosta de fazer em seus longas, mesmo que durante todo o tempo seja fácil compreender quem é que está errado em suas convicções. É quase como se Bong Joon-ho apresentasse aos personagens e aos espectadores do filme o real problema do nosso mundo: a falta de colocar-se no lugar do outro. Da mesmo forma como os ricos que estão em situação confortável no trem não pensam e aparentemente não se importam com os miseráveis que vivem sob condições desprezíveis, fica também claro como os que nesta vivem também não conseguem pensar no outro "lado".

Enquanto filme de ação, "Expresso do Amanhã" também não decepciona. Apesar do ritmo mais lento durante o começo do longa, após o primeiro ato temos várias e várias cenas de luta, correria, inclusive utilizando-se do efeito de câmera "tremida" para dar noção de agilidade, caos. Os efeitos especiais por vezes deixam a desejar quando são utilizados para mostrar o mundo congelado fora do trem, mas nada que comprometa a qualidade final do filme.

Chris Evans, longe de ser um ator espetacular, aqui não atrapalha. Entrega-se numa atuação satisfatória, enquanto Tilda Swinton, brilhante, rouba todas as cenas em que a personagem, uma espécie de porta-voz (bizarríssima!), aparece. -  A personagem lembra MUITO Dilma Rousseff, ficando impossível não fazer comparações engraçadas entre as duas -. Todo o elenco é bem competente em seus respectivos papéis, com nomes famosíssimos como Jamie Bell, Ed Harris, Octavia Spencer, John Hurt, Song Kang-ho e outros mais.

E assim é "Expresso do Amanhã", primeiro longa em inglês do conceituado diretor sul-coreano Bong Joon-ho: brilhante, bizarro, crítico, engraçado, inteligente. Numa palavra: humano (?).

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