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#RESENHA | SHOW | Katy Perry: não é sobre voz, é sobre carisma

Desde que teve sua música lançada à fama em 2007/2008 com "I Kissed a Girl" (precedida por "Ur So Gay"), Katy Perry viu seu nome dividir opiniões durante apresentações ao vivo. Dona de uma voz inconfundível e timbre suave, a reação não é equivocada: Perry tem inúmeras apresentações problemáticas.

De volta ao palco do Rock in Rio na noite desse domingo após quatro anos, para encerrar a edição do festival deste ano, ficou fácil elaborar uma resenha do seu show, bem como traçar vários comentários sobre sua carreira nos palcos.

Diferente das primeiras turnês, em que Katy não contava com dançarinos e seus shows não eram espetáculos, a americana optou por mudar os rumos da carreira ao lançar sua última, "California Dreams" e a atual, "Prismatic World Tour". Se antes a mobilidade e a liberdade que os palcos lhe davam justamente pela falta de "coreografias", a necessidade de performances gigantescas, já que o grande e único destaque era a artista e suas canções ao longo de uma setlist repleta de faixas que misturavam atitudes pop e rock, era o que valia o ingresso, Katy retornou um pouco mais engessada ao longo da "California Dreams", seu primeiro passo em direção à apresentações mais elaboradas, mas não menos carismática.

Não que fosse ruim, mas a última turnê da cantora pecava muito em vários aspectos. O cenário, muito pequeno, limitado, "colorido", infantilizado, as roupas que as vezes pareciam de "papelão", as vezes pano de chão (embora muitas fossem realmente incríveis, lógico) e a organização das músicas deixavam a desejar.

Eis que em 2014, após o lançamento do terceiro CD, "Prism", Katy finalmente deu um expressivo salto em sua carreira ao lançar uma turnê magistral e brilhante à altura de seu talento. Sim, porque mesmo que você não considere a voz da americana grande coisa, inegavelmente muito mérito tem suas facetas enquanto compositora e mais ainda de performer, sempre transbordando carisma durante seus shows numa conexão com o público que poucos conseguem.

Katy Perry sai do Brasil com um pequeno vocabulário em português: "LINDA", "MORTA", "NÃO FALA DA MOMMA". Na captura, momento do show no Rock in Rio em que fã subiu ao palco. (Imagem: Twitter)

Muito diferente de artistas como Beyoncé, que lançam-se em turnês sem que haja espaço para improvisos, interação com o público e desfilam ao longo de todo o espetáculo carões, poses e gestos ensaiados de "divas", "deusas", criaturas quase que intocáveis ou de Madonna, que necessita durante todo o tempo, numa quase esquizofrenia, repetir que é "rainha do pop", Perry transborda alegria, emoção, ao carregar seus shows com um fator infalível e que a fez chegar ao lugar em que está: identifcação. A americana brilha e seu público brilha junto, canta junto, se diverte junto quase como se estivessem lado a lado e alguém soprasse ao seu ouvido: "caramba, ele é humana igualzinho a nós".

Falando especificamente sobre o elemento "voz", é interessante observar as etapas da carreira de Katy. Durante a primeira turnê, seus vocais eram satisfatórios, já que não haviam elementos como dança para que a artista se preocupasse. Durante a "California Dreams", seu vocal passou a se tornar o ponto mais fraco do show. O nervosismo (problema que muito a atrapalha desde o começo), cansaço gerado a partir do esforço da repetição de diversas coreografias, o arranjo das canções e a forma em que a setlist era organizada não ajudavam.

Agora, com a "Prismatic World Tour", a sequência estabelecida faz todo o sentido: durante os primeiros blocos as canções mais difíceis para a intérprete cantar, embora o arranjo novo de "Wide Awake" soe muito inferior ao original e tecnicamente fique ainda mais difícil para ser cantado por Perry, seguido por um bloco inteiro que permite improvisos, inclusive contando com a participação de pessoas da plateia chamadas ao palco, brincadeiras e uma pequena conversa entre convidado e Katy (no caso do Rock in Rio, a insuperável "Rayayayayay", que certamente ganhará alguns minutos de fama tal qual aconteceu com "Júlio de Sorocaba" em 2011). A partir daí, segue-se uma parte inteira do show acústica, para que a americana cante seus sucessos enquanto toca violão e mostre todo o seu potencial vocal, que fica aquém durante toda a primeira parte. Soa quase como um "desculpa pessoal, eu vacilei nessas aí, mas agora vou mostrar que sei cantar sim e vou fazer vocês chorarem ao longo das próximas músicas". E pronto. Faixa a faixa, seu vocal desliza pelas baladinhas tão suavemente que leva qualquer um à catarse.

Por fim, de volta com mais uma seção do show, a performer retorna acompanhada de mais hits, dessa vez com um vocal razoável, certamente como resultado do fim do nervosismo e por entoar músicas mais confortáveis para a região em que canta, até a última e uma das mais difíceis em seus lives, "Firework".

Katy Perry, que entende da indústria musical como ninguém, sabe utilizar seus conhecimentos e aliá-los a seus talentos como ninguém, ao trazer em seus shows espetáculos centrados na sua genuinidade e na conexão que sabe estabelecer com o público. Não é sobre voz, é sobre carisma. E afinal de contas, isso não soa perfeito?_


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