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#RESENHA | CINEMA | 'Pan' é embalagem fabulosa para conteúdo mediano




 






Não é de hoje que Hollywood tenta recontar histórias. Mas ultimamente, curiosamente, há em curso toda uma mobilização em torno dessa proposta dentro dos estúdios. A Disney, por exemplo, foi uma das principais a apostar nessa ideia tanto com 'Malévola' quanto com outros títulos recentemente. Ao assistir 'Pan', porém, a sensação é de que, dessa vez, não funcionou. O filme, que visualmente (principalmente no 3D) é absolutamente incrível, criando um espetáculo vivo lindo de se ver, não consegue encontrar, dentro do seu roteiro, um nivelamento semelhante.

A primeira parte, que apresenta Peter, é pobre e praticamente joga na cara do espectador a preguiça dos roteiristas em criar algo mais elaborado e decente. O texto absolutamente raso nos guia por um 'orfanato' tão clichê quanto seus personagens: a freira-chefe malvada que a todo custo menospreza as crianças (sem motivação nenhuma, ela é só vilã e pronto) e Peter e seu amigo, espertos e ávidos por um tratamento melhor enquanto sonham em serem resgatados de lá pelas suas mães biológicas (principalmente o protagonista, já que sua motivação durante boa parte do filme é encontrá-la). Os dois se envolvem em problemas (lógico) e são perseguidos dentro da instituição por serem corajosos. É quase uma 'Chiquititas', já que nesse início o nível do texto é tão didático e ruim que chega a debochar da inteligência de quem assiste ao filme.

Eis que então Peter finalmente vai parar na Terra do Nunca. É aí que o longa melhora seus diálogos, apesar de utilizar muito mal o espaço dado ao Barba Negra e a situação em que a trama se encontra. Fosse inteligente como as animações da Pixar, por exemplo, que apesar de infantis nunca subestimam a inteligência do público como Pan faz, certamente caberiam ali várias metáforas/críticas sobre o sistema capitalista, sobre a exploração do trabalho, até em âmbitos não relacionados diretamente a de crianças. O longa, no entanto, usa de todo esse espaço apenas para construir a ideia de vilão do Barba Negra.

Apesar do elenco ótimo desperdiçado, o ator principal Levi Miller se destaca na pele do menino que 'nunca cresce', bem como Hugh Jackman, impecável como vilão e Garrett Hedlund, que sempre se sai muito bem interpretando badboys, galãs descolados. Rooney Mara leva boa parte do filme.

Dois momentos me marcaram durante a sessão de 'Pan'. O primeiro deles é a forma como alguns acontecimentos facilmente nos remetem à Harry Potter, veja: sua mãe, que era alguém importante, morre de forma honrada e salva o filho, que já nasce predestinado a destruir o terrível e poderoso vilão e salvar todo um povo. Não é só: durante certa parte, por exemplo, Peter mergulha num lago e tem memórias vindas à vida sob a justificativa de que aquela água traz o passado à tona. É quase como se estivéssemos assistindo a história do garoto com a cicatriz em formato de raio recontada.

O segundo instante que me marca é quando, durante a luta final, os personagens repetem as mesmas falas, para que o espectador, em nenhum momento, tenha que pensar. Várias vezes os argumentos que sustentam a trama são mastigadas, num ciclo exaustivo.

Por fim, Pan é como um show pirotécnico as nove da manhã. Visualmente pode ser absolutamente lindo, mas sem um plano de fundo que o sustente, passa despercebido.

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