// VINHETA FINAL DE ANO 2017 | FELIZ NATAL E ANO NOVO!

// PLAYLIST DO MÊS | DEZEMBRO // FERNANDO WISSE

TAYLA FERREIRA | Maria Gadú - 'Guelã': poesia em forma de som


Quando pensei nesse post, já sabia que seria sobre música, mas passei um certo tempo pensando: sobre que cantor? Qual banda? Decisão difícil. Quem me conhece bem sabe que adoro música nacional. E aqui vou eu, falar de uma das vozes que mais admiro. 

“Minha cabeça trovoa/ sob o meu peito eu te trovo / e me ajoelho/ destino canções pros teus olhos vermelhos/ flores vermelhas, vênus, bônus”


Não há dúvidas. “Trovoa” (letra e música acima) é um poema de versos livres, que trovoa poesia, e toda beleza incrível. A trovadora, Maria Gadú, faz dela uma trova de beleza singular. A música está em seu terceiro álbum, “Guelã”. Nele, as faixas estão mais longas e lentas, e criam climas mais “densos”. Gadú diz que “Esse disco foi feito a fogo baixo, costela de porco, sabe? Busquei os timbres, namorei essa sonoridade por muito tempo”. Um namoro que deu muito certo, temos faixas como “suspiro” e "aquária", em que ela só no final da faixa canta a letra da música (e que fica ótimo). Em “Ela” e “Vaga”, Gadú se assemelha com a  sonoridade minimalista da Björk, e o resultado também, mais uma vez, fantástico.

Outra coisa presente no álbum e que não pode passar em branco é que todas as faixas são “sem estribilhos”. Ainda assim, numa composição entre som/silencio, Gadú nos faz ter experiências sonoras deliciosas.

“há engrenagem no pulso/ há estrabismo na tela/ há de haver mais hoje em dia/pra falta que o ontem faz”
(Em “Há")



Pra quem acompanha o trabalho dela desde o início, com o CD de estreia em 2009 e o grande sucesso “Shimbalaiê”, deve estar adorando ou irá adorar perceber o quanto ela mudou. O disco é uma proposta ousada. Quem ainda não pôde contemplar esse trabalho, eu recomendo que o faça. E espero que gostem tanto quanto eu. “Guelã” significa gaivota, e talvez Gadú faça referência a ser livre, a alçar seus próprios voos. O significado do título de uma das canções do segundo álbum – “Taregué” – traduziu perfeitamente o que Gadú queria e deveria se tornar: livre. E agora com “Guelã”, ela parece estar em um lugar muito confortável: o seu.


"perdão mãe/ se a vida vira/ um mundo de botão/ se a tela espia/ nossa solidão/ se digitei errado/ pra você"
(Em "Tecnopapiro")

É nesse álbum que a artista mostra, e prova, a maturidade que vivencia. E mais que um voo de liberdade, as letras expressam o estar solitário do ser.

"dois pontos negros/ no céu / focam seus olhos/ no mar/ prendo o silêncio/ no peito/ prendo o silêncio/ com os olhos/ faço silêncio de mim"
(Em "Aquária")

"a mente paga/ o flanelinha da lua/ mentir  estraga a corte/ dos problemas/ da casa/ da memória/ da visão/ me reconheço/ aqui nesse segundo/ solidão"
(Em "Vaga")

Para ouvir com a alma (e o coração)

Comentários