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CARIRI | Peça 'Macaquinhos' reacende antiga discussão; "Mas afinal de contas, o que é arte?"

Peça polêmica fez parte da programação da Mostra SESC.

"Gente! A arte não é só sobre o belo." Com essa frase, dita por alguém que ontem discutia junto aos amigos, começo este texto. É que desde a exibição da peça "Macaquinhos", semana passada durante a 17ª Mostra SESC Cariri de Culturas, as redes sociais, as conversas entre pessoas dentro dos espaços da cidade, tudo tem girado ao redor dessa infernal polêmica num loop que tanto enche o saco quanto incomoda bastante.

Creio que o principal motivo de todas as discussões gira ao redor de um simples aspecto: "AFINAL DE CONTAS, O QUE É ARTE?" Há de ser artística uma peça em que os atores apenas "apreciam" o ânus dos outros, num círculo em que todos estão nus (obviamente)?

Para alguns sim, para outros não. Aqui mora meu motivo para a manifestação do que penso. Lógico que a arte, enquanto linguagem, é subjetiva. Igualmente a um texto, uma redação, uma oração, que podem ser entendidas de diversas maneiras, por diversos ângulos, e que podem ter milhões de interpretações, eu realmente acredito que a arte pode ser vista de forma não igual por mais de um ser humano. E da mesma maneira que alguém que compreende a linguagem pode e tem total embasamento para direcionar qualquer forma de texto a algum entendimento, sabendo ele analisar cada parte estrutural, cada palavra, cada sílaba deste texto, eu realmente acredito também que quem estuda a arte e SOMENTE quem a estuda pode dizer quando algum objeto é ou não artístico, seguindo esta ideia de que há uma linguagem ali, que perpassa por conhecimentos que vão além do observar, do ver, do achar. Conhecimentos que vão de encontro com uma desconstrução do artístico, para assim compreendê-lo dentro de sua real essência, que somente estudiosos dentro da área poderiam fazer.

Ora, quando eu digo que a arte é subjetiva, me refiro ao modo como as pessoas podem a entender. Uma mesma peça de Beethoven pode causar estranhamento, medo, angústia, felicidade, vontade de pular e qualquer um dos mais diversos sentimentos dependendo de quem a escuta. Realmente a arte é subjetiva neste aspecto. E, sinceramente? Deve ser. O importante é não confundirmos esta subjetividade! A peça de Beethoven pode ser "sentida" da forma que for, o que sujeito nenhum pode dizer é que aquela música não é arte, muito menos usando como parâmetro o não gostar ou não entender. E até pode questioná-la, convenhamos, da mesma forma que eu posso afirmar que 2 + 2 é 33, mas até que se prove o porquê daquele objeto não ser artístico, muitos argumentos, muitas desconstruções deverão ser feitas para que alguém realmente o leve a sério, assim como para que eu afirme tal pensamento matemático, tenha que prová-lo.

O meu questionamento não é sobre a peça 'Macaquinhos'. Não a vi. E até onde saiba, o próprio SESC exibiu-a num horário propício, bem como para MAIORES de 18 anos (lógico!) e o PRINCIPAL: apenas para quem queria (!). Sacou? Ninguém foi obrigado a ver coisa nenhuma, foi quem quis. O que há de errado nisso? O Cariri já viu peças com fezes humanas, já viu coisas muito "piores".

Daí em diante segue meu profundo incômodo. Eu, logo eu (!), que faço um curso com viés na arte (Música), que pago cadeira de Semiótica para compreender como funciona a linguagem artística desde seus níveis mais fundamentais, desconstruindo-a passo-a-passo num processo que dá trabalho (!), sou obrigado a ver colegas de cursos como medicina, direito, se sentirem no direito de vir debater: "ISSO NÃO É ARTE". Você pode não gostar da peça, você pode achar que é ridícula, você é livre para sentir a partir dela o que puder (lembram do exemplo de Beethoven?), o que eu não admito é ouvir de gente que realmente não entende de arte quando ela existe ou não.

Este texto não é em defesa da peça "Macaquinhos", eu não vi, como poderia defender? Pior ainda: como poderia dizer que não é artística sem ao menos ter a acompanhado? Este texto é uma defesa de nós, artistas, pessoas que trabalham com arte, pessoas que a estudam. Como se já não bastasse um mercado de trabalho que não valoriza em nenhum ponto ou aspecto nossa "categoria", com professores da área, por exemplo, ganhando a mediocridade que ganham, ainda somos obrigados a ouvir de futuros médicos, juízes, pessoas no geral que estarão nos olhando do alto de suas fortunas, o que é ARTE, o NOSSO objeto de estudo, não o deles. Como não se revoltar? Como não se revoltar com alguém que acha que pode emitir opinião "especializada" sobre um assunto que não compreende? Para que haveriam graduações, mestrados, doutorados focadas numa área em que qualquer pessoa pode dizer o que É ou NÃO?

Sendo assim, já que qualquer sujeito pode analisar o que é ou não um objeto artístico, com base nos "muitos" conhecimentos que possui a partir de Aviões do Forró, Safadão ou das pobríssimas aulas de artes nas escolas, a partir de agora irei eu também, então, me dizer médico. Monto uma barraca na praça da Sé, pego os livros de biologia ou ciências do colégio e pronto: acho que já sei medicar alguém. É lógico que dentro de um país como o Brasil, da ignorância, a ideia não poderia ser menos equivocada.

Para finalizar, muito me ENOJA ver que a sociedade sabe falar de uma peça como esta, que rejeita, mas que prestigiar tantos e tantos outros trabalhos dos quais certamente gostaria, não sabe. Falar de algum artista que curte? Não sabe. Escrever textão nas redes sociais sobre alguma peça que assistiu e gostou, não escreve. E o motivo? Porque as pessoas não vão mesmo. Não assistem. Da mesma forma, inclusive, em que nem se deram ao trabalho de ver "Macaquinhos", a quem sabem direcionar tanto assunto. Cultura no Cariri não tem plateia. Simplesmente.

Se todo mundo que se preocupa tanto com o que há de artístico na peça "Macaquinhos" valorizasse realmente a ARTE, mais shows no BNB estariam lotados, mais shows dos projetos de extensão do curso de música da UFCA estariam cheios e, certamente, haveriam menos Calypsos nas rádios. Por isso, a quem acha que entende de arte enquanto senta a bunda no chão ao ouvir "Amor de Rapariga", eu desejo nada demais: apenas que tome no mesmo lugar em que tomaram os "macaquinhos". Porque no Brasil, país da bunda, é assim: cuidar do cu dos outros é sempre melhor que cuidar da própria vida.

Imagem: Facebook

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