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CARIRI | ENTREVISTAS | Conheça Rodolfo Ramalho, o caririense que já trabalhou na Disney



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Quantos jovens ao redor do mundo não sonham em conhecer o 'encantador' e 'fantástico' mundo da Disney? Para alguns, um sonho que realiza-se, para outros nem tão sortudos, um desejo que encerra-se junto ao ciclo da vida. Porém, para além destes, há um grupo ainda mais 'seleto': o de pessoas que vão até lá para trabalhar. Conversei com Rodolfo Ramalho, um juazeirense que agarrou a oportunidade de viajar até a Disneyland para fazer parte do 'universo' de Mickey Mouse e cia. e você pode conhecer um pouco mais desse sonho agora.


BLOG DO PAULO ROSSI: Você é do Cariri, Rodolfo? Como surgiu a oportunidade de trabalhar na Disney?
RODOLFO RAMALHO: Sou do Cariri, Juazeiro do Norte (Ceará). Eu “descobri” esta oportunidade enquanto pesquisava por intercâmbios na Internet. Acho que já fazem seis anos desde o dia em que cheguei até o Disney International College Program (chamado por nós de ICP) no site da agência de intercâmbio contratada pela Disney para fazer a seleção no Brasil, a STB (Student Travel Bureau). Achei uma excelente oportunidade pois além de trabalhar na Disney, ter uma experiência em outro país e praticar meu inglês eu seria remunerado por isso. Entretanto, naquele momento eu não cumpria alguns pré-requisitos básicos para me candidatar ao programa: não era universitário ainda e nem tinha um bom nível de inglês. Após entrar na universidade comecei então a fazer um curso de Inglês e foi somente em 2014 que decidi participar da seleção.


BDPR: O que exatamente você teve que fazer para ser aceito pela empresa? Qual a sua função lá?
RR: Como se trata de um intercâmbio de trabalho não foi somente “se inscrever, pagar as taxas e partir”. Primeiro, os candidatos precisam ser aprovados no processo de seleção que se deu em duas fases: a primeira regional e a segunda nacional. Na primeira fase, houveram entrevistas em cinco cidades: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Fortaleza e Florianópolis. Pela proximidade fui para Fortaleza. Primeiro participamos de uma palestra na qual a agência de intercambio nos explicou alguns detalhes do programa, como: onde você poderá trabalhar, quais as suas possíveis ocupações, quanto irá receber, como funciona o Disney Look (como deve ser sua aparência para trabalhar) e outras coisas mais. Depois da palestra começam as entrevistas, a minha foi no dia seguinte. Todas as entrevistas, já na primeira fase, são em inglês. Os recruiters da agência de intercâmbio nos entrevistam em duplas portando o nosso currículo em mãos que foi entregue na palestra do dia anterior. Além disso entregamos também uma cover letter e uma foto 5x7 sorrindo (“Smile, and keep the magic!”). Apesar do meu nervosismo a entrevista foi tranquila e rápida. Depois da primeira pergunta tudo flui melhor.
Algumas semanas depois recebi o resultado: aprovado!


 Passada a animação da primeira aprovação foi a vez de voltar a focar para a segunda fase: as entrevistas com os aprovados nas fases regionais em São Paulo. A partir deste momento encontrei pessoas que mais tarde se tornariam amigos no grupo do Facebook dedicado aos cast members brasileiros e para aqueles que querem ser um, o Futuros Disney Cast Members (Ah, na Disney todos somos cast members). Ficamos hospedados no mesmo hotel. Novamente assistimos a uma palestra, mas desta vez com uma recruiter da Disney. No dia seguinte foi a minha entrevista no Renaissance Hotel. Na hora marcada estava lá eu e mais algumas dezenas de candidatos a serem entrevistados ao mesmo tempo pela equipe da Disney. As entrevistas foram individuais e um pouco mais longas do que na primeira fase. Além das perguntas tradicionais (do tipo por que você quer trabalhar na Disney) houveram outras mais complicadinhas do tipo “do que você mais se orgulha de ter feito na sua vida e por que?”. Acho que nunca me esquecerei da sensação de dever cumprido que tive caminhando pela Av. Paulista voltando para o hotel onde estava hospedado.

 Finalmente, algum tempo depois, algumas unhas comidas e incontáveis F5 no meu email chegou a tão esperada mensagem com o título de “CONGRATULATIONS”.



 O primeiro passo a ser seguido é o de aceitar (ou não) a sua oferta de trabalho (óbvio eu que aceitei). Como eu já imaginava fui selecionado para Quick Services Food and Beverages. Basicamente trabalhar em restaurantes fast food. Qual exatamente seria nossa função só saberíamos lá. Uma das coisas mais legais de se trabalhar na Disney é poder “pegar” serviços em outros locais. No meu restaurante eu trabalhava na cozinha mas em algum dia livre ou outro eu pegava serviços em outros restaurantes para ganhar dinheiro extra (claro!) e porque achava legal conhecer o trabalho nos outros locais. Então além da cozinha eu trabalhei recepcionando os guests (na Disney ninguém é cliente ou visitante, todos são convidados), auxiliando-os a achar mesas, fazer sugestões ou reclamações e a entregar lanches, além da ajuda de sempre àqueles que possuem qualquer tipo de deficiência. Mas não se engane, nem tudo são flores (rsrsrs), se em um momento você está ajudando alguém a se localizar no parque, em outro você poderá estar repondo estoques ou levando o lixo até a área de recolhimento. Na Disney os cast members que trabalham em restaurantes e lojas fazem de tudo um pouco!

Esta foi a costume que usei quando trabalhei no 'Pecos Bill Tall Tale Inn and Café'.

BDPR: Quanto tempo demorou entre receber a notícia de que trabalharia na Disney e assumir o emprego? Foi um processo burocrático?
RR: Não tenho absoluta certeza, mas acho que foram cinco meses de intervalo: recebi a aprovação em meados de julho e viajei em meados de dezembro. Foi um processo um pouco longo e cheio de formulários a preencher. Quando somos aprovados na fase regional passamos a ter acesso a área restrita do disneyinternationalprograms.com. Lá são postados todos os documentos e formulários que precisamos ler e precisaremos preencher. Temos um prazo estipulado para preenchermos tudo conforme vão sendo postados. Caso não forem preenchidos a tempo a Disney poderá achar que você não tem mais interesse no programa. Além disso há os formulários referentes ao visto. Esta para mim foi a parte mais chata, são formulários embora online longos. Há ainda o pagamento das taxas: taxa de condomínio das duas primeiras semanas do intercâmbio antecipadas, as taxas do visto e o seguro médico internacional que deve ser contratado antes do embarque também.

BDPR: Quanto tempo você trabalhou lá?
RR: De 16 de dezembro de 2014 a 27 de fevereiro de 2015. Um período curto, mas suficiente para se viver grandes experiências. Os primeiros dias são de recepção e treinamento na Disney University, um centro de formação para cast member dentro do complexo WDW (Walt Disney World). A partir da segunda semana passamos ao treinamento em nosso local de trabalho. Depois disto passamos por uma avaliação e somente depois da aprovação começamos a trabalhar.

Este é o “crachá” padrão da Disney: nome, cidade, país e idioma mãe.







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BDPR: Quais os momentos mais marcantes que você viveu? Consegue enumerar algumas situações que te aconteceram lá que ficaram na sua memória? 
RR: A primeira delas não tem a ver com a Disney, mas sim com a dramática experiência de um brasileiro no aeroporto mais movimentado do mundo pela primeira vez. 1. A minha chegada aos Estados Unidos: nada de muito glamoroso (bem ao contrário disto rsrsrs).  Cheguei aos Estados Unidos pelo aeroporto de Atlanta, o mais movimentado do mundo. Devido ao atraso do meu voo eu só teria uma hora e meia para passar pela fila da imigração e correr até minha área de embarque. O problema: era a minha primeira vez naquele aeroporto imenso. A imigração é o local aonde os povos de algumas nacionalidades devem passar antes de pegarem seu próximo destino dentro dos Estados Unidos para terem suas informações e passaporte conferidos. A julgar pela hora que saí da imigração o meu embarque já deveria estar sendo fechado e o meu voo sairia em breve. No primeiro balcão de informações que vi perguntei como chegar a minha área de embarque, já quase desesperado. O desespero só veio mesmo quando eles me disseram que eu ainda deveria pegar um trem para chegar até a área de embarque. Peguei o trem (na verdade é um metrô que funciona somente dentro do aeroporto), que tinha uma estação bem próximo de onde eu estava. Ao descer do trem corri (literalmente) seguindo as placas de indicação até a sala de embarque J. Chegando lá perto vi duas moças que trabalhavam na Delta Airlines no meio do corredor vendo se o atrasadinho Mr. Ramalho não estava vindo. Nunca me senti tão aliviado como no momento em que sentei na minha poltrona, meia hora atrasado e finalmente a caminho de Orlando. 2. Meu primeiro e último Wishes: o show de fogos do Magic Kingdom é sempre um dos momentos mais esperados do dia por todos os visitantes. A primeira vez que vi fiquei maravilhado, era a minha primeira vez lá então era tudo muito novo. Me fez lembrar todos os km viajados desde o processo seletivo até chegar ali rsrsrs. O ultimo wishes foi ainda mais especial porque foi inevitável relembrar naquele momento os melhores momentos daqueles últimos meses. Todos os dias de trabalho, as decepções, as surpresas, os amigos feitos, os dramas enfrentados. Em alguns momentos me sentia dentro de uma destas séries de jovens americanos. Meus amigos eram os melhores e os mais dramáticos também. Eu, como sempre, ouvia incansavelmente os seus problemas e até mesmo sentia as suas lágrimas.

BDPR: Como é viver no mundo mágico da Disney, afinal de contas?
RR: É sem dúvidas muito especial. Eu nunca fui um garoto muito louco pelo mundo da Disney, odiava musicais quando pequeno, histórias de príncipes e princesas não faziam o meu tipo. Me forcei a conhecer algumas histórias antes de viajar porque, afinal de contas, eu iria trabalhar lá hahaha. Mas a verdade é que depois de estar lá é impossível não se deixar envolver com a atmosfera de tudo. Por outro lado, como cast members conhecemos todo o backstage da Disney e como toda a magia acontece. Sabemos todos os caminhos percorridos até tudo acontece embaixo do Magic Kingdom. Ou seja, ao mesmo tempo que vivemos a magia Disney vemos também ela ser quebrada. Mas, ao menos para mim, esta foi uma das melhores partes: conhecer aquela megaestrutura da Disney para fazer tudo acontecer da forma mais perfeita e mágica possível é incrível.

BDPR: O que você trouxe dessa experiência para cá, depois de voltar para o Cariri?
RR: Trouxe meu desejo de inspirar mudança e de tentar fazer nossa cidade um pouco mais “Orlando”. Mesmo para o padrão americano, Orlando é uma cidade muito bem estruturada e com crescimento bem planejado. De causar inveja a qualquer cidade brasileira. Como estudante de administração trago também um pouco do modo de trabalho americano que privilegia a praticidade e a rápida resolução de conflitos. Por outro lado, deixo por lá mesmo a falta de atenção dada aos funcionários e a falta de direitos para os trabalhadores. As experiências vividas lá foram muito importantes para mim como pessoa e sobretudo como profissional, me ajudaram a abrir ainda mais minha mente e a enxergar a diversidade de coisas e pessoas que existe quando saímos da nossa zona de conforto.

Os brasileiros intercambistas.



 
BDPR: Planeja voltar ao exterior algum dia? Morar fora? Quais as diferenças mais gritantes entre a realidade americana e a brasileira, especificamente juazeirense?
RR: Sim. Voltar ao exterior quero e muitas vezes ainda. A ideia de conhecer o mundo me fascina. Morar fora é algo que não ignoro, mas não é algo que planejo neste momento. Acredito que apesar de todos os problemas eu ainda tenho muita fé no futuro do nosso país e acredito muito na nossa geração como indutora de grandes mudanças (no futuro). As diferenças mais gritantes para mim estão na maneira mais prática de levar a vida e a infraestrutura exemplar de Orlando.

BDPR: Você passou por alguma experiência desagradável também durante o período em que esteve lá? Já sentiu na pele preconceito por ser brasileiro ou algo do tipo?
RR: Sim. De maneira geral somos (brasileiros) tratados bem fora do nosso ambiente de trabalho. Entretanto, trabalhando na Disney, descobri que nem tudo é mágica. Há muitas pessoas legais, mas também há muitos que te olham torto. Infelizmente é do trabalho na Disney que trago as maiores decepções sobretudo pela maneira grosseira com a qual alguns tratavam os estrangeiros no restaurante onde trabalhei, o Cosmic Ray’s Starlight Café. Não lembro de nenhum colega brasileiro que dissesse não ter passado por nenhuma situação desagradável. Obviamente a Walt Disney World não apoia estas atitudes e dependendo dos casos pode punir os envolvidos. Fora do trabalho a única situação desagradável que eu me lembro foi no aeroporto ao chegar. Alguns americanos parecem não ter muita consciência que somos turistas e estamos indo movimentar sua economia. No período de tempo entre a minha chegada ao aeroporto e a passagem pela imigração era comum ouvir gritos de uma ou outra pessoa para os grupos de estrangeiros.

BDPR: Que tipo de conselho você daria para quem tem como sonho passar pelo mesmo que você?
RR: Que se dedique e tenha foco. O processo seletivo não é simples, mas também não é nada tão complicado. Faça alguma economia porque morando no interior você gastará bem mais do que aqueles que moram nas capitais. Entre no grupo do “Futuros Cast Members”, lá dá pra ter bastante informações sobre a seleção. E esteja preparado para tudo o que vier, das melhores às piores experiências, esteja aberto ao que é novo e não tenha medo de se divertir!

No dia da Graduation Party recebemos o nosso certificado do ICP das mãos do nosso chefe e de sua primeira-dama.
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BDPR: Do que você sente mais falta da Disney? E do que você sentiu mais falta do Brasil enquanto estava lá?
RR: Sinto falta da rotina de trabalho. Não era fácil, mas era muito satisfatório. Sinto falta do condomínio onde morava, o Vista Way Appartments Complex. Era sempre muito agradável caminhar entre os lagos e as ruas cheias de curvas. E sinto falta também dos dias de sol de Orlando que surgiam para quebrar o friozinho que fazia a maior parte do tempo no inverno da Flórida e pareciam pedir para serem bem aproveitados com uma bermuda, camisa e um sorvete no parque. Enquanto estava lá senti mais falta da minha família e da minha cidade. Os últimos dias do intercambio foram tristes para muitos mas para mim foram marcados pela sensação de dever cumprido e da consciência de que em breve estaria de volta aos meus no lugar que chamo de meu.

BDPR: Obrigado, Rodolfo. Prazer imenso em conversar contigo.

Vista Way Appartment Complex.







Eu na concorrência. Não dá pra ir em Orlando e não passar pela 'Universal Parks'.









Depois do trabalho costumávamos tentar nos reunir na casa de algum amigo.


























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Todas as fotos enviadas e legendadas pelo próprio Rodolfo.

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