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#RESENHA | CD | M83 - 'Junk' é uma espécie de disco retrô, mas ainda com a máxima essência do M83





















Assim que lançou de surpresa o single 'Do It, Try It', Anthony Gonzalez, brilhante mente musical por trás do M83, afirmou que buscava imprimir, no novo trabalho que viria, uma crítica à sociedade atual, que 'descarta álbuns inteiros por só ouvir uma ou duas músicas dos discos', tratando a música como algo superficial. De fato, é possível perceber bastante desta ideia no 'Junk'.

A primeira faixa do disco é justamente o imponente primeiro single. 'Do It, Try It' é incrivelmente rica em detalhes ao apostar numa harmonia por vezes dissonante cheia de melodias por cima e de tensões que não são rapidamente resolvidas, com muitas passagens entre notas e acordes. O teclado, que carrega boa parte da base da canção, segura o ritmo enquanto a música cresce e vai ganhando novas texturas. A letra, quase um retrato do que Gonzalez afirmava buscar no álbum.

Depois, recuperadas as energias, 'Go!' surge com um gostoso solo de Saxofone e uma harmonia mais leve. Riffs de guitarra ao fundo enquanto o refrão chega ao seu ápice, com batidas fortes e uma textura que parece explodir. O efeito já comum utilizado pelo M83 em outros discos de fazer a música parecer 'suspensa' em certos momentos pode surgir aqui, mas logo é confrontado pelos instrumentais fortes e o solo de guitarra na ponte final entre os dois refrões, que eleva a música a um estado de quase catarse.

Certamente o sucesso da faixa 'Midnight City' inspirou muito o 'Junk'. 'Walkway Blues' já inicia com a presença do sax, 'sopro' que perpassa por boa parte do disco, lembrando em algumas ocasiões o hit citado no início deste parágrafo, que possui um interessante solo do instrumento na parte final. É incrível como em determinado momento da faixa sintetizadores, instrumentos e voz se misturam, num quase redemoinho de sons. Na parte final, um solo mais sintético provavelmente usando distorção na guitarra, enquanto ao fundo a harmonia é sustentada. Uma combinação que funciona perfeitamente, principalmente quando, ao fim, ouvimos o toque do piano presente mais uma vez segurando parte do ritmo, junto à guitarra, que vez ou outra surge sutilmente. A letra é uma espécie de 'poema futurista'.

'Bibi The Dog' mantém o disco bem, Mai Lan aposta sua interpretação numa voz mais suave, sexy e falada. O idioma e a articulação usadas para pronunciar as palavras ajudam a deixar a canção pouco mais sensual.

'Moon Crutal' funciona meio que como um interlúdio do disco separando as primeiras 4 faixas mais agitadas das próximas mais centradas. Interessante reparar como o tema nos remete imediatamente aos jingles e aberturas de programas, jornais, talk shows americanos. Talvez, dentro da concepção do 'Junk', seja parte também uma constante crítica ao mundo descartável fora do contexto musical. Os jornais, periódicos, sempre fadados a 'jogar fora' notícias, fatos, entrevistados velhos, poderiam facilmente incorporar a ideia.

Iniciando então uma espécie de 'segunda parte' do disco, 'For The Kids' é absolutamente suave e Susanne Sundfør, cantora já conhecida pelos fãs da banda graças a parceira 'Oblivion', trilha sonora do filme de mesmo nome, tem sua oportunidade de mostrar-se. Sua interpretação lembra as grandes divas do rádio em certos momentos. O sax continua presente, o piano forte ditando a pulsação também. Muito do 'Junk' relembra os anos oitenta e suas baladinhas clássicas. 'For The Kids' claramente é um desses momentos e poderia facilmente ser a trilha sonora de algum clássico do cinema de David Lynch, por exemplo - já pensou na combinação audiovisual perfeita que poderíamos ter visto num 'Veludo Azul' da vida?

'Solitude' é tão característica do M83 em seus vocais 'dispersos', com a presença de um certo delay, e na sua forma geral - bateria, piano, instrumentos de corda friccionada, sintetizadores - que lembra outra canção do disco anterior, 'Wait'. Aqui não há apenas um solo, mas vários, inclusive por parte das 'cordas', mesmo que sintéticas ou não.

 'The Wizard' é obscura e tem uma melodia que, assim como várias músicas da banda, impregna na cabeça de quem a escuta. É 'suja', parece retrô justamente por aparentar, no seu início, uma gravação antiga, cheia de ruídos/interferência. Seria um novo interlude? As próximas canções já poderiam ser enquadradas num novo momento do 'Junk'.

Começando por 'Laser Gun', esse novo momento torna-se mais agitado novamente, como a primeira parte do disco. Mai Lan retorna envolta de sintetizadores, piano, guitarras. Esses instrumentos são parte componentes do álbum e 'Road Blaster' é mais uma faixa que se assemelha muito à identidade da banda. Voltam seus vocais, instrumentais e percussão característicos.

'Tension' funciona como o último interlude do CD. E como há a 'incrível semelhança' no primeiro com o tipo de música que se faz para os canais de TV, certamente poderíamos tratar o 'Junk' como um programa de televisão. Os interludes seriam os comerciais entre as faixas, que funcionariam como os blocos. Bem bolado.

'Atlantique Sud', parceria entre Gonzalez e Mai Lan, é simples e lírica. 'Time Wind', que conta com Beck por sua vez, é gostosa de ouvir e novamente agitada, com uma textura bem trabalhada e por vezes difusa, porém rica. 'Ludivine' e 'Sunday Night 1987' encerram então o trabalho - que possui até uma belíssima melodia na gaita(?) ao fim -. A penúltima, instrumental, e a última poderiam funcionar como as músicas dos créditos daquele nosso programa imaginário que é o álbum.

 'Junk' é o próximo passo que o M83 dá, mas sem, necessariamente, dá-lo. É que ao voltar e recriar canções oitentistas, a banda vai contra boa parte do que fez durante sua carreira, centrada em algumas faixas futuristas (não à toa o convite para compor a trilha do filme 'Oblivion', que se passa muitos anos no futuro, com o visual característico que o diretor Joseph Kosinski adora), extremamente sintéticas, complexas, 'cheias de neon' e algumas artimanhas musicais.

Aqui não, há muitos instrumentos orgânicos, num trabalho mais conceitual e muitíssimo bem pensado. E se o futuro é sempre fadado a reviver o passado, num ciclo sem fim que é o mundo e a vida, 'Junk' centra-se em contar um pouco dessa história. 'Não há melhor maneira de prever o futuro do que olhando para o passado'. O disco ainda dá conta de inserir criticidade à forma plástica e descartável como vivemos. Um produto de altíssimo nível e mais um indício de que M83 é uma das bandas atuais mais competentes.

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