// VINHETA FINAL DE ANO 2017 | FELIZ NATAL E ANO NOVO!

// PLAYLIST DO MÊS | DEZEMBRO // FERNANDO WISSE

#RESENHA | MÚSICA | 'Perfect Illusion' é um excelente parâmetro para se discutir Lady Gaga

  

















 

O maior problema de Lady Gaga é a sua mania de grandeza. Sempre foi. Cobiçando ser maior do que é, e prometendo fazer músicas revolucionárias e álbuns do milênio que não são capazes nem sequer de reinventar o próprio pop, a loira mais parece aquele candidato a vereador que promete mudar sua cidade inteira às vésperas da campanha eleitoral. Lógico que até certo ponto é super saudável querer alçar voos altos. Isso todos nós devemos desejar. O problema é quando a 'vontade de comer vem antes da fome', já dizia aquela sua tia-avó.

Sendo assim, o primeiro problema de 'Perfect Illusion' é que essencialmente não é Lady Gaga. É Mark Ronson. Claramente. Toda a 'levada' da música tem a assinatura do produtor e se assemelha demais a sua marca. E ainda tem Josh Homme na guitarra. Quer dizer, sabendo-se bem que características centrais da música podem ser facilmente atribuídas aos produtores por trás desta, sobra o quê para a 'revolucionária' Lady Gaga? O excelente(!) vocal e a letra horrorosa - falo já sobre isso.

É sempre engraçado traçar um comparativo entre Katy Perry e Gaga. Restringindo seus álbuns à questões harmônicas, vocais, à obra em si - ou seu conjunto -, Gaga pode até estar na frente, mas Perry tem uma grande vantagem em relação à loira: personalidade. Pega-se cinco músicas de Katy e constata-se que apesar de arranjos por vezes genéricos, há conteúdo. As letras conectam-se com as pessoas e as conquistam porque a artista e compositora por trás daquele trabalho sabe se conectar. Isso chama-se carisma. E por mais genéricas, há vida e cores únicas nas canções de Katy Perry, que se enchem de personalidade. Enchem-se de substância. Vigor. Lady Gaga é exatamente o contrário. E convenhamos, de que adianta uma embalagem linda se o presente não for bom? Perry tem sérias desvantagens quanto a sua 'embalagem', mas sua música tem vida própria e sentido de existir. Como a arte não necessariamente tem de ser, mas quando é, torna-se essencial.

Vamos pegar 'Perfect Illusion' e destrinchar. Tirando o arranjo poderosíssimo construído com a ajuda de Mark e Josh Homme temos uma letra pobríssima. Horrorosa. Repetitiva. Chata. Irritante. Fraca. E que não diz absolutamente nada. De dar pena a qualquer compositor. Gaga não é revolucionária. Mas quer ser. E peca sempre no mesmo aspecto. Constrói uma canção tecnicamente decente, mas por vezes vazia. Sem conteúdo. E sem conteúdo, Gaga, não há arte que se sustente, não para ser considerada absoluta, por mais técnica que seja. E vice-versa, talvez.

Tão prepotente quanto compor em 'Applause' 'Em um segundo, eu sou um Koons, e então /  De repente, o Koons está em mim / A cultura pop estava na arte /  Agora a arte está na cultura pop, em mim!' é acreditar que lançar um álbum de jazz te faz um artista brilhante, é pensar que reinventar-se é perder a identidade que te fez chegar aonde você chegou. Britney Spears acaba de se reinventar no disco novo sem precisar fugir do gênero que a consagrou. Um artista que vive pelos 'aplausos' não vive pela arte em si. Vive pela fama. Pela glória. Pelo reconhecimento. Essa é uma busca vazia. Essa é uma busca por aceitação. Não pela arte. O reconhecimento deve ser consequência, jamais causa. Para toda e qualquer pessoa. Em todo e qualquer caso. Sempre.

Sendo assim, Lady Gaga continua soando igual aquela pessoa que anda na rua com camisa do Strokes, Ramones e Nirvana, tem no perfil do Facebook uma foto dos Beatles, mas nenhum disco dessas bandas e as playlists repletas de forró e sertanejo genéricos: forçada. Pode ser no pop, no jazz, agora migrando para o rock ou em qualquer gênero que planeje fazer para mostrar quão artista e versátil é. E mesmo diante de produtos tão bem bolados, ainda assim não é capaz de dar suporte à própria grandeza que tanto almeja. É como aquele jogador 'fominha'. É marketing, é aparência. E é muita preocupação em parecer. A arte precisa apenas de essência, Gaga. É hora de você sair do personagem automático e mostrar a que veio.

Esta resenha não poderia jamais descartar 'Perfect Illusion' enquanto a boa canção que é. E é. Mas enquanto produto de uma artista tão desesperada em aparentar, soa apenas infeliz. Com uma sonoridade que lembra até 'Papa Don´t Preach', da Madonna, e uma letra que repete a mesma e cansativa frase mais de 20 vezes (!), no final das contas, consegue apenas ser idêntica a 'Cilada', do Molejo.

Na verdade, talvez os problemas da faixa nem sejam esses. A mesma exagerada repetição na letra da canção vinda de um artista mais seguro de si poderia soar até transgressor. O jazz, blues, a música experimental, progressiva ou a psicodélica podem ser tão repetitivas quanto. Mas se justificam. Aqui esses defeitos - lembrar uma outra música, da Madonna, também - não parecem apenas coincidência e já são recorrentes na carreira de Gaga. Sem personalidade e conteúdo, mesmo que tecnicamente revolucionária, cheia de viradas na bateria, mudanças de tom - que aqui servem apenas para que a cantora passe a berrar de novo repetidamente o refrão, só que numa tonalidade diferente -, a música torna-se apenas uma bela carcaça. Um bonito acessório. E por mais perfeito que seja, apenas uma ilusão. Uma perfeita ilusão. Nós merecemos mais.

Comentários