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Há uma semana eu perdia meu tio - e uma parte da minha infância também -










Às vezes a vida parece ser meio - e estranhamente - cômica. Eu, por exemplo, levei 21 anos para perceber o óbvio: as pessoas amadas por nós morrem. Como é ruim!

Há algumas semanas visitava no Hospital meu querido tio. Aquele rosto abatido me deixou em choque inicialmente. Não era daquele jeito que o conhecia. Não entendi. Entre as poucas palavras trocadas, um 'tá em qual série já, Rossi Neto - a família me chama assim - ?'. 'Tô terminando Música, último ano da faculdade', respondi, mesmo que essa nem fosse a verdade sobre o conturbado momento em que vivo. Tanto tempo que não conversava ou ao menos via meu tio me fizeram refletir sobre esta oração e o sentimento de distância que me assombra há anos desde que me mudei com meus pais e deixei para trás, entre outras 'coisas' e pessoas, meus amados primos Saulo e Júlia. E tio Orlando. E minha infância feliz ao lado de pessoas realmente valiosas que hoje estão seguindo também as suas vidas mais distantes de mim do que eu gostaria.

 'É isso aí, Rossi Neto, estamos aí em busca da felicidade!'. Naquele instante eu não sabia que seriam as suas últimas palavras dirigidas a mim. E não irei esquecer. Quem me conhece e quem me acompanha nos últimos anos, meses, sabe o impacto que uma frase dessas tem nesta doce, cabisbaixa, decepcionada, amargurada, incompreendida e existencialista alma. Foi pra mim! E me acertou em cheio! Parece que no meio do curso do meu caminho me desviei e passei a pensar e a tentar entender a vida. E não dá. Não dá. Há um ciclo que se repete constantemente. Há Forças maiores que nós. E há verdades inconvenientes no caminho. Verdades dolorosas. Eu não quero ser o próximo a enlouquecer por mergulhar de vez no mundo e no sentido de tudo. E não serei.

Lembram de quando escrevi há pouco que menti sobre estar terminando Música? Pois é, a verdade que nunca conto às pessoas pelo tempo que me custa explicar tudo é que estou abandonando o curso. O motivo? 'Estamos aí em busca da felicidade'. Que frase e que momento para ouví-la. É exatamente isso que estou tentando fazer, tio Orlando, mesmo com todos os empecilhos: partir em busca de ser feliz. E afinal de contas, não estamos todos nesta busca interminável?

Há uma semana, exatamente nesta mesma hora, 04:00 da madrugada, encontrava-me com a família numa funerária. Foi difícil encarar tio Orlando. Ainda não o reconhecia. Ali, parado. A última lembrança. Mas não é assim nem de longe que me recordo dele.

Eu lembro de tio Orlando no ápice da minha infância enquanto eu e meus primos brincávamos de carrinho, jogávamos ou andávamos de bicicleta - uma vez quando 'barroei' em Júlia sem querer levei um 'cagaço', tinha sido imprudência minha (e veja como é a vida: anos depois estaria eu pelo mesmo motivo batendo novamente, só que agora dirigindo carro). Eu lembro de tio Orlando levando nós três para passear na sua 'pampa' branquinha. E como era bom o vento no rosto! - lógico que íamos lá em cima na parte de trás! (e naquele tempo podia) -. Eu lembro de sermos levados a Akin lanches, lembro de irmos à Cancela, um lugar perto da Exposição, muitas vezes. De irmos comer um sanduíche meio 'caseiro' que alguém tinha acabado de inventar de fazer e vender quase em frente à Angélica Floricultura. De irmos assistir à "malhação de Judas". De irmos ver o 'Desfile das Virgens' todos os carnavais e levar muito spray no rosto, até precisar de um pano para tirá-lo 'do olho' e melhorar a sensação de ardor. Lembro dos Carnavais. Lembro de quando eu, Saulo e Júlia íamos ao Golden Park no Cariri Shopping e meus pais e tio Orlando nos levavam. Os três passavam a noite inteira sentados conversando enquanto brincávamos realizados com a vida que tínhamos. Eu lembro de tio Orlando com seu 'canivete' afiado descascando laranja nos nossos quintais vizinhos e separados apenas por um 'portão'. Lembro de quando ele usou este mesmo canivete para cortar uma fatia de pizza de Júlia no Golden Park, inclusive. Lembro de irmos comprar fogos com tio Orlando no São João. Lembro de sua raiva pelo PT e por Lula. Das inúmeras vezes em que o via em frente à TV vendo TV Câmara ou TV Senado e falando sobre política. Pela sua paixão pelo Programa do Ratinho. Pelas suas críticas aos padres e à Igreja sempre de forma bem-humorada na nossa frente.

Foi dito durante seu velório que tio Orlando era conhecido pelo carinho que tinha com as crianças. Eu não sabia disso. Mas fiquei feliz. Feliz porque me dei conta de que, sem saber, pude sentir na pele esse carinho durante toda a minha infância. E quão feliz eu fui! Lembro de passar as férias com Saulo e Júlia, inventar balançador em árvore no meu quintal, de inventarmos um escorregador usando uma escada que meu pai tinha e o plástico velho da minha piscina de mil litros, sempre com nossos pais observando-nos de alguma forma e preocupados com nossas aventuras. Nem sempre fui uma criança boa, devo confessar. Pelo contrário. Eu era mandão e chato, além de outras 'coisas'. Lembro de outro 'cagaço' que levei de tio Orlando por tratar mal meus primos certa vez. Meu tio era daqueles cabras machos brutos do sertão. Tínhamos medo dele, respeito. E não éramos os únicos, lógico. Entre suas qualidades, havia também muita sinceridade. A sua opinião sempre era sincera, mesmo quando tantas vezes fazia doer ou soava grossa. Essa é uma "marca registrada" que desejo ter também.

Eu era feliz. E sabia. Mas o tempo passou. Parece que quando chegamos a certa idade cada vez mais temos menos futuro. E menos passado, já que o que vai acontecendo vai também deixando de existir em nossas memórias. Parte do meu se foi com meu tio. Me resta apenas deixar aqui a minha singela, sincera e saudosa homenagem. E acho que de certa forma é preciosa, pois é feita exatamente do mesmo modo que recordo tio Orlando falando sobre mim. Certa vez, por exemplo, na Malhada, lembro da forma como ele me apresentava à todos: 'Rossi Neto é da cidade. O bicho gosta é de estudar, de ler livro', em contraposição ao lugar em que estávamos. E aquela viagem é das minhas melhores lembranças. Fizemos tanta coisa! Conheci um mundo inteiro que não pertencia à minha caminhada e que tio Orlando sabia. Ele era um sábio. Desses que adquirem a sua sabedoria pela experiência que vão ganhando ao longo dos anos. E veja que ironia: logo agora que eu abandonei um curso faltando apenas duas cadeiras para o fim para me jogar de corpo e alma no sonho de ser jornalista, mais uma vez tio Orlando estava coberto de razão, como costumava ter - ele também era sábio na forma como levava as coisas: não costumava falar quando não tinha propriedade sobre o assunto e sabia disso -, afinal de contas: talvez meu negócio seja realmente ler, escrever e pesquisar. Deveria tê-lo ouvido mais antes de ingressar na Universidade. Uma parte das minhas futuras conquistas será sua, tio Orlando. Eu jamais seria quem sou sem a sua presença e a dos meus primos vizinhos, que moravam logo ali, do lado. Gratidão eterna.

Não sei. Minha homenagem é singela, como já disse. Sou um pouco tímido, já fui muito e quase todos os meus arrependimentos perpassam por esta infeliz característica. Entre o que deixei de viver estão as várias vezes que poderia ter ido ao Sertão ou à Malhada com tio Orlando e meus primos, ou os amigos que poderia ter feito nesta 'trajetória'. Descobri só agora - segundo informações da minha avó - que inclusive sou parente distante dele - achava que não era, uma vez que o considerava tio pelo fato de ser, naquele tempo, casado com a minha tia de sangue (na verdade prima) -. Tina, Luciano, Bernardo são alguns dos personagens constantes da vida do meu tio e primos e nomes dos quais recordo demais de ouvir na infância, mas que nunca conheci bem pessoalmente ou convivi pela timidez de ir às suas casas em companhia justamente deles - a casa de Tina recordo de ir uma vez -. Só no enterro descobri que duas conhecidas minhas do Cariri Criativo, que sempre vejo cruzando 'por aí' e que admiro e gosto bastante são também filhas de amigos/parentes de tio Orlando. Poxa, poderíamos ter sido amigos. A vida toda. Quanta coisa perdi. Que droga. Agora, sem meu tio e sabendo que não ouvirei mais sua risada única, tão característica e expressiva, até pensar na minha própria vida e no caminho que percorri e que quero percorrer se tornaram incontroláveis.

Acho que escrever aqui a minha mensagem final com o rosto encharcado mais uma vez por lágrimas, meu desabafo tardio ao meu querido tio Orlando é tudo o que me resta. Entender a vida, ah não! Isso não é possível. Que daí de cima você possa nos acompanhar e aguardar. Um dia estaremos juntos. Todos nós, toda a família. E todos os dias gloriosos que me foram dados durante uma infância feliz serão retomados, dessa vez com a coragem que só agora o senhor me inspirou a ter - por culpa minha! -.

E quanto à minha família, sinto que hoje estou diferente. Fui distante durante muito tempo das pessoas que realmente importam. Este ano decidi quebrar de vez com isso. Eu quero uma árvore genealógica! Eu quero conhecer todos os meus antepassados, todos os primos distantes, tios, avós, tios-avós! E eu quero conviver ao máximo, conversar ao máximo para que a saudade que estou sentindo durante a última semana possa se repetir de maneira mais branda da próxima vez. Vai saber os efeitos de uma morte tão triste num jovem solitário e que só passou a conhecer este lado da vida aos 21 anos como eu!

Mas estou fortalecido, de certa maneira. A saudade da minha infância feliz, da infância que nunca pude ter pelo medo e a saudade do meu tio, descobri há uma semana, estão interligadas. E desse presente, tio Orlando, eu jamais irei esquecer. Aguardo ansioso pelo nosso reencontro, pelo meu reencontro comigo mesmo, com a criança feliz que fui e com a que poderia ter sido. Agora eu vou desbravar as possibilidades que deixei de lado naquela época, mas é rápido. Eu chego já. Todos nós chegamos já. A vida é um milésimo de milésimos infinitos de segundos no Grande Relógio Universal que põe em ordem o mundo. E com a mesma coragem, felicidade, paixão que o senhor tão reconhecidamente desbravou a própria caminhada, eu quero desbravar a minha. É a promessa que me fiz. E é em sua memória também. Esta é a minha despedida.

Até já. Com carinho,

Seu sobrinho Rossi Neto.




*Entre os marcadores que deixarei neste post está 'super-heróis'. Este marcador uso somente quando falo sobre os heróis de quadrinhos - Batman, Superman - e seus lançamentos no cinema e TV, mas acho que de alguma forma você, tio Orlando, merece estar entre esses selecionados.

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