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NATHALIA BRITO | MUNDO | MÚSICA | DICAS | Pensando sobre o disco 'Who You Selling For', de 'The Pretty Reckless'



Para quem, o que e como você está vendendo?


         'The Pretty Reckless' é uma banda de rock formada no ano de 2009 em Nova Iorque, recebendo atenção da mídia pela front woman ter atuado no seriado 'Gossip Girl'. Entretanto, Taylor Momsen disse ao que veio com sua enorme capacidade vocal tão bem explorada nos três álbuns de estúdio já lançados.

Lançado em 21 de Outubro de 2016, 'Who You Selling For' é, antes de tudo, um álbum experimental. É um registro feroz de uma banda que se aventura em jornadas de auto crítica e auto conhecimento, que amadurece a cada álbum lançado. Diversos subgêneros do rock são explorados nas 12 faixas contidas no CD, desde o funky-rock ao country-rock. Provando não só o alcance vocal de Taylor Momsen, como também a alta qualificação de Ben Phillips na guitarra, de Mark Damon no baixo e de Jamie Perkins na bateria.

O cunho autobiográfico nas canções é uma característica marcante da banda desde seu primeiro álbum 'Light Me Up' (2010). As músicas são compostas por Momsen e Phillips, que exploram a relação deles com a fama e consigo mesmos. Por estar desde pequena nos holofotes, Taylor tem uma relação bastante tensa com a fama e a retrata com maestria nesse álbum.

Enquanto em 'Going To Hell' (2014) as músicas assumem vocal e instrumental mais pesados que vão de encontro à também densa temática religiosa abordada no disco, 'Who You Selling For' vai usar da característica camaleônica de seu som para fazer seus questionamentos. Inspirando-se em grandes estrelas como The Rolling Stones e David Bowie, é neles que a banda se inspira para experimentar outros subgêneros de seu estilo musical.

Assim como nos lançamentos passados, as músicas deste álbum conversam entre si. A diferença é que este conta uma história mais sólida, o que faz com que ouvir o disco na ordem em que as canções foram dispostas torne-se ainda mais importante. De acordo com Taylor, o título do CD, assim como suas canções, é um modo de desafiar o ouvinte a questionar suas próprias ações e as daqueles a seu redor.

O álbum é aberto com as canções 'The Walls Are Closing In' e 'Hangman', que são compiladas em apenas uma faixa. Uma decisão muito interessante e certeira, visto que as duas partes completam-se e uma música inteiramente diferente é formada com a junção das duas. A canção é inspirada pelo poema conhecido como 'Tichborne’s Elegy', de Chidiock Tichborne, que foi um católico condenado à morte por traição, ao conspirar contra a Rainha Elizabeth I por ela ter tornado a prática de sua religião ilegal.

A segunda faixa, com influência do Motorhead e de cunho extremamente autobiográfico, fala a respeito de crescer em um mundo onde a opinião alheia vigora e afeta a auto aceitação pessoal por conta de críticas externas. Utilizando do sarcasmo para falar também a respeito do preconceito em trechos como “Wish I was black, wish I had soul and my music attacked”, 'Oh My God' fala também dos padrões estabelecidos como norma pela sociedade. E, como conclusão, da depressão que vem com a constante cobrança para se encaixar nesse mundo.

Seguindo o estereótipo do rock que fala sobre pactos com o diabo, 'Take Me Down' utiliza de um som claramente inspirado em 'Sympathy For The Devil' do The Rolling Stones. A canção pode até mesmo estar fazendo uma pesada crítica à indústria musical. O pacto que Taylor canta para que seja selado seria na verdade o contrato a ser assinado pelos artistas, que possuem um amor tão grande e um desejo tão forte de fazer música que se submetem a situações abusivas.

Com o som de correntes junto ao instrumental mais puxado para o blues e letra mais simples, 'Prisoner' pode parecer nada mais que uma canção fraca ao ser tocada sem antes ouvir as faixas anteriores do disco. Entretanto, ao analisar esta música após ter experimentado as outras, Taylor pode estar referindo-se a indústria musical e aos holofotes. No trecho “I know I’m a criminal, don’t you tell on me”, ela parece fazer uma referência aos paparazzi que aproveitam-se de qualquer escapada dada pelos famosos para ganhar em cima deles.

Assim como na canção anterior e na 'Why’d You Bring a Shotgun To The Party' do álbum de 2014, 'Wild City' usa dos ruídos de fundo para criar a ambientação da música. Com os barulhos de motores de carros e buzinas, o ouvinte é situado no meio de uma cidade selvagem, como o título indica. Nessa quinta faixa com a pegada do funky rock inspirada por David Bowie, Momsen narra as dificuldades de ser uma garota sozinha em uma cidade grande.

A primeira colaboração da banda, 'Back To The River' tem um toque country ao estilo Elvis Presley que contrasta com a guitarra do convidado Warren Haynes da The Allman Brothers Band. Cansada do estrelato, a protagonista da história do álbum agora quer voltar as suas origens, antes da fama e da exposição indesejada, como ela explana no trecho “I’m going back to the river where no one knows my name”.

A faixa-título, 'Who You Selling For', é a tradicional balada acústica que vem a cada CD da banda. Com vocais suaves e uma composição lírica, questiona a respeito do que está sendo mostrado, pensa em como está sendo vendido e o que está se vendendo. E, enquanto a maioria das outras faixas é pessimista, esta já é mais leve e positiva. A canção traz também referências a outros artistas, como aos Beatles no trecho “John was a walrus but he ain't no dancer like Paul” e a Pink Floyd em “And when Roger showed me I was building a wall”. Também faz referência ao filme 'Taxi Driver' no trecho “And when Travis called I didn’t even answer”.

Assim como a faixa-título, 'Beedrom Window' destoa do resto do álbum por sua suavidade tanto no cantar quanto no instrumental. É uma música curta, que pode ser interpretada como uma continuação para a história da garota da cidade grande que, após voltar para casa para fugir dos holofotes encontra-se perdida em si mesma. O trecho “I have lost touch with what makes me human I have lost touch with reality” corrobora a ideia de que a fama traz consequências com as quais ela não consegue lidar propriamente.

Quebrando a suavidade das faixas passadas, 'Living In The Storm' vem como um soco no estômago com a sua ferocidade vocal e instrumental. É um grito de guerra, repetidas vezes Taylor grita que não é ela, que diferentemente dos outros ela se recusa a deixar-se levar pela correnteza. Enquanto seus amigos parecem estar entorpecidos e alienados, ela diz que vai resistir. “But it's not me, I can think, I think I'll stay right where I am, I'll try to ignore it, Try to ignore this, This banging at my door”.

Em 'Already Dead' o humor volta ao pessimismo das primeiras canções do álbum, com o trabalho excepcional de Jamie Perkins na bateria, criando toda a atmosfera pesada e roubando a cena apesar da guitarra escandalosa de Ben Phillips. Nem mesmo a voz de Taylor pôde se comparar à bateria de Jamie, que a cada batida parece atingir o ouvinte mais fundo.
A décima primeira faixa do disco ganha um tom meio fantasmagórico com a guitarra de Phillips e os vocais arrepiantes de Momsen. Toda a composição vocal e instrumental da música harmoniza com a letra, que remete à segunda canção do álbum. E, assim como na terceira faixa, o diabo aqui é também uma metáfora. Desta vez, para a depressão.

Para encerrar o álbum, 'The Pretty Reckless' volta ao território do funky previamente explorado em Wild City. Dessa vez com uma introdução claramente inspirada em 'Lucy In The Sky With Diamonds', que depois transforma-se em um funky dançante. Esta canção é a chance de Mark Damon brilhar com seu baixo.

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