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Quando o artista 'diz' tudo sem 'dizer' nada

Joubert durante performance.

   Na última terça-feira (10), no pátio da Universidade Federal do Cariri (UFCA), alunos, professores e demais pessoas que passavam pelo local presenciaram um momento especial. O colóquio interdisciplinar 'Corpo e Visualidades', criado a partir da performance do dançarino Joubert Arrais, também professor da Academia, em colaboração com a profª Elane Abreu e duas turmas do curso de jornalismo, chamou a atenção de muitos.
   Entre dança, muita performance corporal, música e símbolos, no entanto, muito do que acontecia ao redor da apresentação também chamava a atenção, enquanto um áudio tocava ao fundo daquele cenário, revelando, a cada nova repetição, pouco a pouco, a frase mais tarde ouvida finalmente completa: "O senhor se incomoda em morar debaixo da ponte com sua mulher tão jovem, um filho pequeno, num barraco feito de papelão comendo lixo das ruas com ratos e baratas ao seu redor num barraco de papelão que o fogo acabou de queimar? O senhor está triste?".
  Primeiro, os alunos de jornalismo na mais sincera representação da 'mídia-urubu' que tanto criticamos em sala de aula e que tanto sonhamos - ou pelo menos a maioria sonha - em mudar em relação à mídia tradicional. Pessoas ultrapassavam a linha branca colocada entre o que seria feito de "palco" e o "público" e invadiam o espaço do artista. Durante todo o tempo. A chuva de flashes era uma iluminação a parte - que bom que não haviam contratado nenhum tipo de "efeito" nesse "quesito": seria desnecessário diante das câmeras ávidas por fotografias dos alunos -. Até onde o público pode fazer isso? E a imprensa? Esse comportamento dentro do jornalismo cultural é exemplo a ser seguido? Não? Por quê?
   Esse debate inclusive foi suscitado pelo performer, que na ocasião viu com positividade o retorno do público e sentiu que a energia do mesmo, naquele momento, foi um importante incentivador. Que bom então.
   Me chamou atenção também, enquanto Joubert dançava ao som de "I Am Robot", a reação de alguns colegas, que ridicularizavam a apresentação, falando sobre o quanto aquilo era "humanas" ou questionando o valor daquela performance, como se a subjetividade daquele momento valesse menos do que objetos artísticos objetivos e "utilitaristas". Completo com a fala de muitos quando eu perguntava sobre o quê seria aquilo que estávamos acompanhando e o quê o artista queria nos passar, 'dizer': "Não é pra dizer nada, é pra sentir". E não é que, de fato, a arte é, em si, poética?
  Quando terminada a apresentação, mais um fenômeno curioso. Não estamos acostumados a experienciar momentos estéticos. Feito Maria E. Reicher em "Introdução à Estética Filosófica", ao citar o artista que disse que o 11 de Setembro era uma obra de arte - não me recordo agora o nome do mesmo, desculpa -, fico eu pensando sobre a apresentação. Na busca por um sentido naquilo tudo, os alunos falavam sobre o que sentiram. Falavam sobre a angústia, sobre a ansiedade, o cotidiano, a pressa, a crítica social que estava ali. 'Era óbvio o que o artista queria passar'. Tantas interpretações possíveis!
   O dançarino, no entanto, num bate-papo que aconteceu depois de finalizada sua apresentação, foi enfático ao resumir sua performance em experiências que acumulou ao longo da própria vida, com algum elemento inaugural, novo, por se tratar da sua primeira performance na UFCA e de um público novo, seu primeiro contato com essa realidade diferente. "Era uma experiência". Era um momento para pensarmos sobre o Corpo e a Imagem de uma forma mais 'prática'. 'Só'. E de repente, tantos significados poderosos, tantos signos, explicações cheias de ideias e pensamentos elaborados metafóricos, metalinguísticos, encontrados ali não passavam de palpites mesmo. Eis a beleza da arte! Enquanto tantos questionavam aquela "viagem muito doida", a performance com 'a cara da humanas', mais uma vez esta vencia sob os níveis neutro, poético e estésico.
   A arte não precisa ser incrível, de fazer queixos caírem, sofisticadíssima, recaindo-me mais uma vez sob o texto de Maria E. Reicher. A arte pode ser simplória, singela e mesmo sem grandes números elaborados, ainda grandiosa, ainda geradora de grandes debates, grandes discussões, reflexões. E aquele dançarino sabia disso. A experiência estética pode perpassar pelo momento mais simples, imbecil e descartável do nosso dia -a-dia, tal qual a matemática, que não precisa se provar em equações gigantescas: 2+2=4 é uma operação simples, óbvia e internalizada por todos, mas mesmo assim continua sendo matemática. A ideia de uma arte "utilitarista" é uma mentira da qual nossa sociedade ainda não conseguiu se desvencilhar. E nesse sentido a performance de Joubert é um tapa na cara de todos nós. É uma performance que 'diz' absolutamente tudo. Sem 'dizer' nada.

Confira mais fotos da noite:




Público ávido por imagens representa bem a 'mídia-urubu'.






Texto e todas as fotos feitas por Paulo Rossi.

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