// VINHETA FINAL DE ANO 2017 | FELIZ NATAL E ANO NOVO!

// PLAYLIST DO MÊS | DEZEMBRO // FERNANDO WISSE

#RESENHA | CINEMA | 'Blade Runner: 2049': o futuro não é tão brilhante assim nesse espetáculo impecável


NOTA: 10.0/10.0  //  Excelente

   Sequências são sempre um momento de provação dos cineastas. Sequências feitas mais de 30 anos depois, dirigidas por diretores diferentes, ainda por cima, devem multiplicar por dez o risco de fracasso. Antes de qualquer coisa, Denis Villeneuve não só foi bastante corajoso e feliz na idealização deste projeto, como também prova ao final do trabalho seu talento como artista.
   "Blade Runner" consegue o feitio de não ser só continuação, expandindo todo o universo trabalhado no longa anterior de décadas atrás, além de criar conexões entre passado e futuro extremamente bem feitas. Até os merchandising da Peauget e Sony são legais aqui.
   No elenco, nomes de peso como Harrison Ford, Jared Leto e Robin Wright dão um toque especial aos personagens, mas é Ryan Gosling quem praticamente leva toda a história 'nas costas', dando ao seu policial K as nuances exatas de que este precisa.
  A fotografia é um delírio, é um espetáculo em si. Um prazer, um deleite. A paleta de cores extremamente bem utilizada divide-se em momentos futurísticos cheios de detalhes em neon do urbano, em momentos bem amarelados, alaranjados fortes quando o filme passa a focar em cidades abandonadas e temas relacionados à narrativa original de 1982 e em momentos mais azulados quando o presente é focado dentro da caótica cidade de Los Angeles em 2049. Esse contraste entre cores frias e cores quentes gera um elemento por vezes desconfortável que é central dentro do futuro construído por Ridley Scott e Villeneuve: a natureza fria, gelada das coisas e a contaminação alaranjada causada pela radiação em alguns lugares do planeta. A paleta bem funcional vai de encontro ao competente CGI mais orgânico, meio 'fosco', muito bem utilizado, e ainda ao trabalho de fotografia, fazendo do longa um projeto convencedor, bem feito e de aparência bastante real.
   Aliás, o trabalho técnico feito em 'Blade Runner: 2049' é do mais alto nível. Se a fotografia é um delírio, a trilha sonora desenhada por Hans Zimmer em conjunto com Benjamin Wallgish e Jóhann Jóhannsson, a partir da original da década de 80´, não poderia deixar de ser outra peça fundamental. Por vezes eufórica, por vezes contida. Os graves, o 'barulho' futurista, o timbre que lembra uma buzina ou um ruído extremamente alto compõem as sequências de forma brilhante. É também caótica e as vezes muito desconfortável aos ouvidos. Perfeita. E em incrível sincronia com o futuro mostrado aqui. A primeira vez em que a música tema do longa de 1982 toca, logo após algumas revelações, inclusive, é de uma beleza lírica. É o nascimento de uma nova ideia dentro da já conhecida e cultuada.
   'Blade Runner: 2049' ainda traz, durante quase três horas, questões filosóficas para além do que é ou não ser humano, ser máquina e ser android. Questões que hoje em dia, mais do que nunca, se debatem. O olhar para com o tema não só é extremamente sensível por parte da direção como também levado a sério num trabalho que não nega a que veio. E que não tem medo.
  O filme consegue, também, ser uma experiência sensorial. Em várias cenas Denis Villeneuve faz questão de nos levar junto com os personagens. Há sequências imersivas que por vezes nos deixam fascinados, por vezes agoniados, tensos. O reencontro emocionante com Deckard é um momento de tirar o fôlego e exemplo dessa imersão poderosa do trabalho, sendo parte das longas sequências sem diálogos. O filme inteiro, em si, é um evento.
   Falando justamente sobre isso, algumas sequências que podem parecer longas funcionam e muito quando se tem a necessidade de construir e ambientar a história. É fundamental. 'Blade Runner: 2049', mais do que contar uma narrativa, nos guia através de vários elementos sensoriais até ela, nos transporta a esta realidade por vezes completamente diferente da nossa, até para que entendamos o filme da melhor forma possível. Os personagens não têm pressa, tudo acontece no seu tempo. Não há cortes apressados. Como já relatado aqui, muitos momentos se estendem silenciosamente e apenas visualmente, sem diálogos, apenas com a trilha excepcional de Hans Zimmer.
   Outro belo exemplo de imersão é o primeiro momento que mostra o protagonista vivido por Ryan Gosling interagindo com o programa 'Joi', interpretado por Ana de Armas. As vezes em que a câmera foca na cidade caótica e cheia de luzes de Los Angeles em 2049 é outro exemplo. As cenas com Joi são intensas e demoradas e repletas de significados: Caso houvesse um programa de computador que é apenas o que você quer que ele seja, ele seria real? Ou para ser real é preciso necessariamente fugir do nosso controle? Por quê nos enganamos e insistimos em nos enganar, investindo nosso tempo e amor naquilo que sabemos que não é real? Insistindo em possibilidades e sonhos que sabemos que não são possíveis, são apenas mentiras nos contadas? A lealdade da máquina é realmente lealdade ou apenas o circuito funcionando de acordo com o que foi destinado a fazer? Há destino para nós, humanos, há destino para as máquinas? Todos nós nascemos já com nossos futuros projetados, planejados? São questões já trazidas pelo 'Blade Runner' original e mais recentemente em 'Ex Machina', por exemplo.
    Entre as discussões filosóficas potencializadas por estas perguntas, temos alguns elementos de 'Her' trabalhados aqui também. O que é ser máquina, o que é ser android, o que é ser humano? 'Blade Runner: 2049' é material para um TCC ou artigo.
  O filme suscita discussões sobre preconceito, bullying, os problemas sociais causados pelas diferenças entre as pessoas. Aqui, entre seres humanos, 'máquinas', androids. E quando uma brincadeira com relação à ideia de alma é feita, mais perguntas: Afinal de contas, quem a possui? Homens, máquinas, androids, nenhum dos três, depende da pessoa, depende da máquina, depende do android? E essa dualidade não para sequer por um minuto. Trocadilho com código genético é feito. Seres humanos se resumem a quatro letras do alfabeto: C G T A. Humanos têm nomes, máquinas têm números de série. É somente no momento em que o protagonista pensa ter nascido de uma gravidez normal e não ter sido gerado em máquinas que ele ganha nome. De 'K' a 'Joe'. Aliás, e se os androids engravidassem? Isso os tornaria humanos? A busca pela humanidade é um traço humano dentro deles? Por quê ser humano? Para quê? Qual a vantagem? Por quê essa busca? 
   Os diálogos são longos e riquíssimos em detalhes, mais ricos ainda se vistos sob as entrelinhas. A quantidade de questões levantadas pelo poderoso Wallace, interpretado por Jared Leto, em uma única frase, é gigantesca. E é na dúvida, que 'Blade Runner: 2049' abraça carinhosamente, nas perguntas sem respostas, que o resultado do longa se mostra ainda mais poderoso.
   O trabalho com a iluminação, principalmente dentro do prédio da indústria do poderoso, egocêntrico e dono de uma síndrome de Deus única, Wallace, já citado aqui, a ideia e os conceitos criados para o futuro, ao mesmo tempo em que honram o original, criam novas possibilidades estéticas.
   Aliás, o personagem de Jared Leto e a sua empresa trazem reflexões também sobre poder. Empresa x Estado. O empresário, por exemplo, tem tanto poder que faz praticamente tudo o que quer. Invade a polícia e rouba ossos, mata pessoas com uma arma letal flutuante enquanto espia o protagonista e 'salva'- não de graça, lógico - sua vida.
   O melhor de 'Blade Runner: 2049', no entanto, talvez seja a forma como o filme NÃO glamoriza o futuro. Pelo contrário, o faz parecer tão real quanto cruel, tão distante quanto absolutamente dentro das possibilidades pelas quais a nossa humanidade caminha - até a ideia de androids não parece mais tão impossível quanto era em 1982, convenhamos -.
   A competência na hora da criação de realidades mostrada dentro do filme é a própria 'metáfora metalinguística' feita ao cinema, que conta histórias necessariamente verossímeis para que possamos nos imergir e criar relações com o objeto artístico, tal qual os androids precisam de boas memórias forjadas para que funcionem bem. Nossas memórias são reais? E se são reais nos dão sentimentos autênticos? Coisas reais são confusas. E no mundo, será que nós somos produtos do que inventam? Somos o quê? Somos feito 'K', apenas peças em um tabuleiro muito maior, mesmo quando nos sentimos especiais? Ou somos especialistas por fazer parte do tabuleiro? Do jogo? Qual nossa diferença, afinal, para a menina que inventa a própria vida aprisionada? Seríamos nós ela? Estaríamos aprisionados dentro de nós mesmos e do mundo apenas tentando fazer nossa realidade ganhar sentido? Criando-a?
    Há uma parte do longa em que vemos algumas abelhas. Esse elemento também nos permite pensar sobre os temas discutidos aqui. Abelhas são primordiais para a vida humana, regulam parte do ecossistema. E surgem no filme justamente - e de propósito! - no único lugar que possui vida dentro de uma cidade abandonada. Interessante as relações construídas. Será que esses insetos também são necessários para regular a vida de androids? Isso torna os androids humanos, então?
   A sequência final do longa é de encher os olhos d'água. Impactante. E deixa a história aberta assim como o original de 1982. Incrível. Um trabalho de muito respeito feito por pessoas habilidosas. As surpresas são bem preservadas, o roteiro é ao mesmo tempo extremamente simples e competente. Ao passo em que cria um universo extenso.
   Esse roteiro simples, aliás, capaz de criar todo um universo de possibilidades, funciona muito bem junto à trilha sonora excelente, irritante, o futuro neon, colorido, e ao mesmo tempo menos cinza e triste impossível. E é em meio a essas dicotomias que 'Blade Runner: 2049' se mostra um clássico que surge para incomodar, de certo modo, e fazer pensar sobre o mundo e o futuro que estamos construindo. Um futuro não tão brilhante assim: machista, misógino, que ainda possui exploração infantil, ainda extremamente desigual, irônico, cruel, complexo, sujo, hostil, tecnológico e cheio de divergências. Do real e da ilusão ao mesmo tempo.

Comentários

muito boa essa resenha! fico doidinha com as questões que o filme propõe. Sempre me assusta esse futuro por vez conhecido, por vez desconhecido. afinal quem somos nós? o que nos torna humano? aff pronto, passar o dia encucada com isso. Eu acho que demorei para "digerir" 2049 exatamente por isso. Eu tinha esquecido dessas questões, estava imersa passivamente na existência. Um filme maravilhoso em história, fotografia, trilha sonora e em propor essas questões tão legais de serem discutidas. Quero assistir de novo
Amaral Lugo disse…
Excelente resenha do filme. Um dos aspectos mais importantes de cada produção é o seu elenco, pois deles despende que a história seja caracterizada corretamente. O trailer Blade Runner 2 é bom e eu já quería ver, ancho fizeram uma eleição excelente ao eleger os atores. Gostei muito desta história, acho que é perfeita para todo o público.