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#RESENHA | DISCO | Katy Perry - 'Witness' é o trabalho mais maduro de Katy Perry, mesmo que isso não signifique um álbum maduro em si


NOTA: 9.0/10.0  //  Ótimo

     Aguardado por cerca de quatro anos, finalmente o novo disco da Katy Perry foi lançado. Recheado de hits e de letras pessoais - nada de novo até aqui em se tratando de Perry -, o registro se mostra o mais maduro da carreira da cantora.
     'Witness', a primeira faixa que dá nome ao CD, é das mais interessantes do registro e possui uma textura que chama a atenção, não só pela potência dos graves, que também estão presentes em outras canções, mas pelos suaves assobios ao final, o vocal, pelo ritmo marcado também por sons mais percussivos, pelo teclado agitado e a ótima letra, que traz algumas questões sociais. Esses elementos criam, juntos, uma espécie de atmosfera poderosa em torno da canção.
     'Hey Hey Hey' inaugura a fase mais militante e crítica de Katy, após sonhos adolescentes e muito algodão doce. E se o 'Prism', de 2013, já trazia uma sonoridade melhor explorada e trabalhada, o 'Witness' continua neste caminho. 'Roulette' é um acerto e tanto. O dance aqui se impõe e apesar da letra mais do mesmo, vibra. A progressão da harmonia ao longo dos versos até chegar ao explosivo refrão é uma construção que funciona muito bem e que constrói uma relação de sentido com a proposta da música, dando realmente uma sensação de velocidade, de "volta". A textura mais sintética inclusive pode te lembrar facilmente Lady Gaga em 'The Fame', de 2008.
     'Swish Swish' é o primeiro flerte da cantora neste trabalho com a sua já conhecida irreverência. A letra, que poderia ser uma resposta à Taylor Swift em 'Bad Blood', é típica da Katy Perry e é do tipo que gruda na cabeça de quem estiver nas pistas de dança, com a sua clara assinatura. Nicki Minaj adiciona ao time com seus criativos versos, que conversam com o tipo de pop feito aqui, que ao mesmo tempo é também uma forma de encorajar aqueles que sempre se sentem retraídos. O teclado combinado à melodia do refrão totalmente sintético dá a textura um aspecto interessante.
    'Déjà Vu' segue nesta mesma linha de música característica da artista. Assim como 'Roulette' e outras canções do disco e da carreira de Katy, há também uma ideia de progressão aqui que vai dos versos até o refrão mais marcado, seja por linhas bem melódicas ou por símbolos, tornando-se ainda mais "pegajoso".
   'Power' tem uma bateria aparente e uma espécie de carga depositada nela. As viradas dão imponência e a letra volta ao pop mais proposital defendido pela cantora. O refrão explosivo é uma construção que casa perfeitamente com o contexto da faixa. Belo arranjo e vocais pontuais de Perry. 'Mind Maze' é esquecível. O autotune no refrão estraga a experiência musical, mesmo com a letra competente. A intenção ao usá-lo não funcionou bem e complica o conjunto.
     De volta aos desabafos adolescentes, 'Miss You More' mostra o lado Katy Perry que persiste desde o disco que a revelou ao mundo, 'One Of The Boys', de forma competente e ao lado de uma sonoridade relativamente nova diferente do seu primeiro CD. 'Chained To The Rhytmn' é talvez o grande trunfo do 'Witness', no entanto, e chega trazendo ao álbum o fôlego necessário para que este chegue ao fim. O conceito trazido junto à composição, a ideia trabalhada, a textura que consegue conversar perfeitamente com o conceito geral da música apresentando sons que automaticamente nos remetem a "correntes", numa espécie de engrenagem, causados também a partir do perceptível riff delicioso da guitarra. O baixo repetitivo gostoso de ouvir e forte. Tudo aqui funciona bem junto, fazendo da canção um trabalho absolutamente intrínseco capaz de explodir cabeças pensantes demais. Incrível! Destaque também para a ótima participação de Skip Marley, neto do grande Bob Marley, que incrementa a "receita".
     'Tsunami' tem em seu início alguns elementos a mais: sons de ondas ao fundo. Katy Perry utiliza a mesma ideia em 'Save As Draft', quando acrescenta à textura da música sons de uma máquina de escrever sendo utilizada, além de uma pausa para respiração no momento "So I take a deep breath/And I save as draft". Duas produções que funcionam bem dentro do conceito de baladas do disco e que reafirmam o frenesi de Perry por símbolos, sempre mastigando suas referências e seus signos ao extremo, às vezes de forma cansativa, inclusive, principalmente nos seus trabalhos visuais. 'Tsunami' ainda tem alguns elementos de reggae e continua a mostrar graves e batidas mais características deste disco como um todo.
    'Bon Appétit' tem uma letra ruim, a sonoridade trash, no entanto, com um leve flerte no hip hop, pode funcionar como uma crítica também e possuir um significado mais consistente. O feat. não chega a ser algo que melhore em algum aspecto a canção. 'Bigger Than Me' é genérica, mas se encaixa bem aqui, já que o 'Witness' como um todo, possui um 'ar' por vezes genérico e clichê mesmo, principalmente devido à personalidade muito "pop massiva" da cantora. É uma espécie de desabafo também e parece, de certa forma, bem íntima, assim como 'Save As Draft', baladinha seguinte.
    'Pendulum' é ótima e ganha vida quando encontra a participação de um coral fazendo uma espécie de contraponto ao vocal principal de Katy Perry, inclusive com palmas. Aliás, esse é mais um exemplo de como a cantora mastiga suas ideias, com a 'ida e vinda' de um pêndulo muito bem marcada durante todo o tempo, principalmente pela forte presença do teclado. O arranjo é bem construído. 'Into Me You See',  por outro lado, encerra de forma tranquila, contida, e dá ao 'Witness' e à Katy Perry seus momentos mais vulneráveis aqui. Teclado muito bem marcado e um vocal satisfatório, com mudanças entre a impostação de Katy, que varia desde uma voz mais "de garganta" até uma voz "de cabeça" bem aguda e quase sussurrada. É aqui que Perry entoa o verso "isto é intimidade", quase como num recado de como tentou mostrar sua verdadeira essência durante toda a experiência do álbum. Fomos "testemunhas".
    Sendo assim, 'Witness' se mostra o álbum mais maduro da norte-americana, principalmente em relação à produção e ao contexto e conceito definidos aqui, mesmo que isso não signifique, necessariamente, um disco maduro em si. É um produto que por vezes grita, sofre. E ainda sobre a sua "generalidade", as camadas graves colocadas durante a composição sonora, as viradas, os baixos, percussões, baterias, o teclado que conduz muitas das músicas e que funciona muito bem como base para as construções harmônicas, os símbolos, o timbre doce e o vocal bom de Katy Perry, além das letras, mesmo quando nem tão satisfatórias assim, viram esse jogo e fazem do disco um ótimo registro.
    'Witness' é coeso, estabelece um bom ritmo ao longo de seus pouco mais de 57 minutos e tem "alma". É o grito de uma artista que quer sair do seu lugar-comum sem deixar de ser quem é. É o testemunho de alguém que plenamente já sabe que atingiu seu auge, sabe como o mundo e a máquina do capitalismo dentro da indústria musical funcionam, mas que quer ir aos lugares aonde acredita que deve chegar.

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